
Acordei
duas horas após ter adormecido, era uma da madrugada. Embora tentasse dormir
novamente, o sono não vinha, parecia que a insônia se instalaria em mim.
Debati-me na cama, de um lado a outro, tentando restabelecer o descanso,
conseguindo por volta de 2:30.
Já
totalmente relaxado, no exato momento de sonolência, senti-me desapegando do
corpo, flutuando em meu quarto. O primeiro pensamento foi que poderia estar
morrendo (deve ser assim que acontece): meu espírito estava levitando, enquanto
o corpo permanecia deitado sobre a cama, adormecido.
“Não quero voltar”,
pensei convicto, forçando o espírito a seguir em frente, "quero ir mais, além dos limites de meu quarto". Flutuando,
segui em direção à porta fechada, ultrapassando-a facilmente, como se ela não
existisse...
O
meu vôo astral me levou para um lugar totalmente desconhecido e estranho,
considerando-se os padrões terrenos: encontrava-me em um tipo de galeria de
arte, composta de enormes corredores, as paredes laterais estavam repletas de
quadros afixados, todos com figuras de pessoas. Navegando, suspenso no ar, na
posição horizontal, olhava de modo esfuziante aquele cenário de intensa
nitidez; cores brilhantes reluzindo em tonalidades jamais vislumbradas em meus
sonhos.
Estava
consciente, não dormia, sabia que pela primeira vez estava fazendo uma viagem
astral acordado. Tentei não me emocionar para não interromper a experiência
mais fascinante de minha vida até então. Segui pelos inúmeros corredores
intensamente iluminados. As figuras daqueles personagens, em belas molduras,
tornavam-se quantitativamente infindáveis. Uma voz interior me fez ter a
clarividência sobre aquelas pessoas: "são
reis, sábios e santos”.
O
que esta trilogia significaria? Muitos caminhos interpretativos poderiam ser
trilhados. A primeira idéia foi a de que um rei, detentor de poder e liderança,
necessita também da sabedoria, própria dos sábios, e da espiritualidade inequívoca
dos santos, para aí sim ser um verdadeiro Rei.
O
reino, aqui, não é aquele composto de terras, riquezas e súditos, mas formado
pelo universo íntimo de cada pessoa, sendo o espírito o Rei deste reino
interior, de domínio difícil tanto quanto aqueles territoriais existentes
na Idade Antiga e Média.
O
Rei interior de cada ser humano não pode governar os diversos setores
(profissional, educacional, sentimental, religioso, etc.) sem a sabedoria
verdadeira, aquela de Salomão, para poder discernir entre o bem e o mal, o
certo e o errado, entre os caminhos que se avizinham sempre em nossas passagens
terrenas, escolhendo os melhores tanto para nós, quanto para aqueles que nos são
importantes.
Mas
ainda assim, mesmo seguindo com sabedoria, o êxito administrativo do reino
pessoal não está garantido sem a espiritualidade, própria dos santos, no
sentido de a compreensão, além dos limites racionais, possa ser vista também
pelo olhar do amor espiritual, ampliado pelas várias dimensões e diversas
encarnações, ensinando-nos a necessidade premente de controlarmos as emoções,
sobretudo as nefastas, para que o equilíbrio imprescindível se manifeste
naturalmente (águas revoltas transmutadas em calmaria, permitindo o navegar
seguro).
Maravilhado
pelas imagens fantásticas, resolvi descer no final de um dos corredores,
momento em que, lamentavelmente, fui puxado pelo cordão de prata, retornando-me
ao corpo material. Totalmente acordado, pude sentir o batimento acelerado do
coração, repleto de excitação e felicidade pela dádiva acontecida.
Em
minha mente uma frase ecoava: “Tenho de
viver a minha vida com mais sabedoria”. Em que setor particular faltava
sabedoria?, questionei. Talvez seja localizado, talvez seja no geral (terei de
descobrir). Devo governar o meu reino interior com reflexo comportamental tendo
mais sabedoria e mais espiritualidade, para que os equívocos humanos causados
pela impulsividade menos lúcida sejam minimizados.
Dominando-me, tendo o controle pleno de mim, o caminho da retidão será facilmente encontrado. Ao meu reino interior, se governado com sabedoria e espiritualidade, a paz dos santos virá como recompensa.
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Texto do livro: "Outra
vida, nova chance"
de Moacir Sader - p.63/65
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